segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Timeless

em matá-la por um tempo, penso. decido, não cogito. engolida a decisão, ela prossegue. não dobra à direita ou à esquerda, nem olha para trás. sinto que ela está sendo levada para a escola. os pais a deixam na porta, mas ela desvia. ah, os desvios... pregam peças sem planejar o palco. foge, corre, urde, estanca. vi que ela correu para um lado. um mundo que não é nosso, dela. você sabe o que é abandonar uma vontade pré-definida por querer se esquivar de si? não, nem eu tento compreendê-la. então, deixo-a descontinuar em seus passos. respeito o tempo. ela chora, eu não consolo. ela almeja, eu não alcanço. é bom respeitar a violência alheia. e ela a tem por debaixo da pele, nas entranhas que sangram. e foi. saiu mais para dentro de si. percorreu caminhos, regrediu temores, avançou horrores. vi. torci. agora sento e espero que volte plena. satisfeita, com o estômago cheio de surpresas e borboletas. volta. arruma o cabelo, acerta o vestido. está na hora de ir para casa. sente-se velha demais, mesmo criança, para abandonar os novos hábitos que inventa dia sim outro também. ouço sua risada congelada em algum abraço partido. vejo seu coração parado em alguma descarga líquida. ela chega perto de mim, faz gestos no ar tentando me persuadir de que não desviou e se aventurou. olho e a conheço. uma menina mora ao lado dos pecados que residem nas arestas de minha mulher. ela cresce, brinca e pula. e eu adormeço ao seu lado.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

À prova

quando lhe enviei os textos, não negou a leitura das provas. esqueci de avisá-lo que aqueles não eram os originais. atencioso, disse ter gostado de minhas letras. percebeu que eu me dava bem com as palavras e ele com os números. acertados ficamos de que nos ensinaríamos a conhecer um ao outro, palavra a número, número a palavra. aprendi a integrar, a pensar logaritmo e mol de outros modos. descobri que fatorial de mol é infinitamente maior do que meu juízo poderia espaçar. ele descobriu nossa primeira além-palavra em comum: o azul. dividimos com guarda moderada. ambos desfrutavam dele, com sorrisos de canto de lábios, gentilezas sacanas e sacanagens gentis. a essa altura, ele não sabia dos anti-originais. há dois dias, perguntei se os havia lido novamente. disse que não, porque eu citava outros e não ele. falei que os outros eram espectros, mas esqueci da parte dos anti-originais. do azul, da lua, da aurora em seu olhar e de você por perto, leia-se originais. não permito que nenhum fantasma ou espectro os atinja. podem estar à prova, neste momento, mas são os originais que guardo e que divido somente com quem me edita, linha a linha, e tenta me multiplicar, número a número, enquanto me subtraio. você.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

I'm kidding

um tango enroscado mexer com livros infantis. semana passada, quase comprei exemplares de livros-brinquedo. um deles era da coleção "leia e abrace" e chamava-se "a coelhinha divertida". perigo, vinha um fantoche. na sexta, conheci um de banho, totalmente plastificado, tinha até olhos que se movimentavam. e foi assim que "tuca, o tubarão" me conquistou. hoje descobri um intergalático, perdido na órbita da redação, com planetas-cartões em formato pizza. quase o devorei. "o caos impera" já diria aquela marionete-raposa da película "o anticristo". aliás, será que ela está à venda também? brinquedos para gente que se apequena...

domingo, 27 de setembro de 2009

Anti-conselho

as últimas linhas desescritas aqui prometeram ser as últimas desaparecidas. e são. por cerca de seis meses sumida, retorno agora, sem mala e cuia na mão, mas respiros no braço, antebraço, joelho, em mim. volto a me dar o direito de ter tempo. um direito escuso, bem malandro. creio que escolhi essa vida de "era pra ontem" quando pequena, e em alguma aposta de adolêta. devo ter puxado o rabo de algum bicho estranho e como revés tive a punição de dedar o cotidiano. achei a brincadeira desafiadora e assumi a guarda do escrito. e do vivido também. tempos depois descobri que eram teúdos e manteúdos de si e dos nossos. um escrevia e o outro vivia. o outro vivia e o um escrevia o todos pelo falar de cada um. uma teia com desmembramentos inconclusos, mas adjuntos.

se escrita fosse boa, ninguém a teceria.
se escrita não fosse meu mal, descompassada se calaria.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Último post antes do fim da correria

tenho trabalhado bastante desde fevereiro, vulgo tenho sumido. da vida, do msn, do orkut, do descompasso, do twitter que tenho e não tenho, do facebook que não tenho e tenho, de mim. conduzi dois trabalhos durante três meses, quase morri de cansaço. abri mão de um deles, mas continuei nos corres diários.

cunho este post como o último de aperto de tempo do mundo.
voltarei a viver, finalmente.

tanta saudade dos amigos durante este período. agora, chega.
estou na contagem progressiva para reaparecer. oba!

quinta-feira, 12 de março de 2009

Meninos, o dia já envelheceu, entrem para fora

o atrasado: não dirige o passo e atropela a palavra.
o adiantado: acorda mal-humorado.
irrealidade: em permanentes distrações.
perigo: o de sempre, por favor.
consciência: massinha tóxica para adultos.
mo[vi]mento: a ponta, o laço, o avesso, a etiqueta aparecendo.
damaged goods: na clandestinidade de horas sem trégua.
at the count of three: o toque de recolher líqüido.
dia-há-dias: o quer dizer então.
ar: insiste em lembrar que tengo... e tango que.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Ao luxo de ser meio tipo hermética

caminhar descalça: me fala sobre o resto do mundo.
difusa: com cada uma é outra e é igual.
confusa: com cada uma a ausência é outra.
bifusa: com cada uma a ausência é igual.
vênus: linhas das mãos.
medo: tontería na estantería.
ingresso: o barulho da pipoca que não acaba.
egresso: o direito aos mais cinco minutos sem mundo.
uso sistêmico: inscrever "tenho medo do quão perfeito você é em suas imperfeições", fecha aspas e mãos aos olhos.
uso tópico: escrever "pronta pra outras e pra triciclo", encerra expressão e abre ação.