Timeless
em matá-la por um tempo, penso. decido, não cogito. engolida a decisão, ela prossegue. não dobra à direita ou à esquerda, nem olha para trás. sinto que ela está sendo levada para a escola. os pais a deixam na porta, mas ela desvia. ah, os desvios... pregam peças sem planejar o palco. foge, corre, urde, estanca. vi que ela correu para um lado. um mundo que não é nosso, dela. você sabe o que é abandonar uma vontade pré-definida por querer se esquivar de si? não, nem eu tento compreendê-la. então, deixo-a descontinuar em seus passos. respeito o tempo. ela chora, eu não consolo. ela almeja, eu não alcanço. é bom respeitar a violência alheia. e ela a tem por debaixo da pele, nas entranhas que sangram. e foi. saiu mais para dentro de si. percorreu caminhos, regrediu temores, avançou horrores. vi. torci. agora sento e espero que volte plena. satisfeita, com o estômago cheio de surpresas e borboletas. volta. arruma o cabelo, acerta o vestido. está na hora de ir para casa. sente-se velha demais, mesmo criança, para abandonar os novos hábitos que inventa dia sim outro também. ouço sua risada congelada em algum abraço partido. vejo seu coração parado em alguma descarga líquida. ela chega perto de mim, faz gestos no ar tentando me persuadir de que não desviou e se aventurou. olho e a conheço. uma menina mora ao lado dos pecados que residem nas arestas de minha mulher. ela cresce, brinca e pula. e eu adormeço ao seu lado.