quinta-feira, 12 de março de 2009

Meninos, o dia já envelheceu, entrem para fora

o atrasado: não dirige o passo e atropela a palavra.
o adiantado: acorda mal-humorado.
irrealidade: em permanentes distrações.
perigo: o de sempre, por favor.
consciência: massinha tóxica para adultos.
mo[vi]mento: a ponta, o laço, o avesso, a etiqueta aparecendo.
damaged goods: na clandestinidade de horas sem trégua.
at the count of three: o toque de recolher líqüido.
dia-há-dias: o quer dizer então.
ar: insiste em lembrar que tengo... e tango que.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Ao luxo de ser meio tipo hermética

caminhar descalça: me fala sobre o resto do mundo.
difusa: com cada uma é outra e é igual.
confusa: com cada uma a ausência é outra.
bifusa: com cada uma a ausência é igual.
vênus: linhas das mãos.
medo: tontería na estantería.
ingresso: o barulho da pipoca que não acaba.
egresso: o direito aos mais cinco minutos sem mundo.
uso sistêmico: inscrever "tenho medo do quão perfeito você é em suas imperfeições", fecha aspas e mãos aos olhos.
uso tópico: escrever "pronta pra outras e pra triciclo", encerra expressão e abre ação.

terça-feira, 10 de março de 2009

Eu sou grande, fico acordada até mais tarde

malícias: aterro para alguns, porto para outros.
epifanias: não atingem, ultrapassam.
coleções: de mãos perdidas.
perdições: moram perto e são nômades.
ciúmes: vizinho 171 que faz barulho e não assume.
ácidos: o poder da traça no dentro.
esterilidades: lugares com lugares.
brevidades: cátedras de infusão.
amor: paz por ocupação quadrada de tormento interior.
ódio: um retrato cego em cores.
guerra sem fim: a paz comigo mesma.
no recompor-se: a inútil crueldade da análise.
no desfazer-se: a útil maldade da psicanálise.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Toma esse xarope

racional: colarinho alvejado, sem mancha de batom.
emocional: logro vestigioso, obstinado em desventuras.
mocinho: o que vira a caça.
bandido: o que vira a cachaça.
pequenez: deixa o bicho externo tomar conta do mundo interno.
altivez: não deixa soluçar um gole de mundo.
sede: palavras guardadas sem exatidão de momentos.
fome: desejos esquecidos como esquecimentos lembrados.
inveja: animais em busca do cheiro do cu alheio.
la izquierda: o grande cenário.
la derecha: elenco de apoio.
el marromeno: estou tentando não me conseguir.

domingo, 8 de março de 2009

Ocorrências diversas

profecias: manchas de roupa, pontas de cabelo.
tremedeiras: cartas escritas pelo tempo.
arrepios: razão a pau, sentimento a pique.
caprichos: frases soltas em um livro atado por desejos presos.
contradições: a favor das subtrações.
dissimulações: procustos do interior alheio.
verdades: aquela menina que te escutava sem poder contestar.
mentiras: fracassos que não duelam.
cotidiano: um desaforo diário.
recíproca: é verdadeira e cafona.
óbvio: o nada ser o tudo.

domingo, 1 de março de 2009

In giro

ganhei-o de presente no início de 2004. veio até com bateria recarregável de estórias. pior impossível para quem aprecia perder o tempo com bons lero-leros, meu caso. e foi logo tomando um lugar cada vez maior dentro da família e da minha admiração. tanto que quando teve que fazer uma mini-viagem para sua terra, deixou saudades ingratas em todas as mulheres de casa. saudades essas culinárias, por supuesto. cozinheiro de primeira, botou as gregas para repensarem seus temperos, na cozinha e, principalmente, na lida. voltou no meio de 2004 para o brasil. adoçou 2005, 2006 e 2007, quando decidiu se aventurar por aí novamente com minha tia. lembrei da perda de mais um pai. carmelo tornou-se um zio/papá, uma espécie de conselheiro/coleiro nos momentos de aflição da moça descompassada aqui. de outubro de 2007 a novembro de 2008, senti muita falta daquele que me puxava a orelha em momentos de covardia sentimental, de imediações delimitadas demais, de falta de porre nas velhas instituições, de enfrentamentos pessoais necessários. o blues não foi o mesmo durante o afastamento. sentíamos muita falta uns dos outros - minha tia e carmelo, eu e as moças da família. nossa massa embatumou, pegou fogo, estourou a panela, mas se ainda tivesse explodido a cozinha, tudo bem, mas nem isso. pelo contrário, os pratos renderam um menu insosso, nem doce nem salgado, exagerado no silêncio e mingüado de ruídos. a receita desandou e o botão do fogão consertou. de como obstruções muito pensadas não rendem o caldo desejado. nos entantos, adormecemos sem motivo. de como o sono cansa. e envolvida neste bafuá desmedido, fiquei. desaprendi a tomar jeitos sem jeito, destemperei tudo aquilo que carmelo ensinou a salgar e a adoçar. e quando ele soube, não lamentou, voltou. desde dezembro de 2008: cafés curtos, lampejos estendidos, descomplicações à base de complicações. nós em tantos.

volto a exercer o sic de hilda: sinto-me livre para fracassar.
gracias, papá.