ganhei-o de presente no início de 2004. veio até com bateria recarregável de estórias. pior impossível para quem aprecia perder o tempo com bons lero-leros, meu caso. e foi logo tomando um lugar cada vez maior dentro da família e da minha admiração. tanto que quando teve que fazer uma mini-viagem para sua terra, deixou saudades ingratas em todas as mulheres de casa. saudades essas culinárias, por supuesto. cozinheiro de primeira, botou as gregas para repensarem seus temperos, na cozinha e, principalmente, na lida. voltou no meio de 2004 para o brasil. adoçou 2005, 2006 e 2007, quando decidiu se aventurar por aí novamente com minha tia. lembrei da perda de mais um pai. carmelo tornou-se um zio/papá, uma espécie de conselheiro/coleiro nos momentos de aflição da moça descompassada aqui. de outubro de 2007 a novembro de 2008, senti muita falta daquele que me puxava a orelha em momentos de covardia sentimental, de imediações delimitadas demais, de falta de porre nas velhas instituições, de enfrentamentos pessoais necessários. o blues não foi o mesmo durante o afastamento. sentíamos muita falta uns dos outros - minha tia e carmelo, eu e as moças da família. nossa massa embatumou, pegou fogo, estourou a panela, mas se ainda tivesse explodido a cozinha, tudo bem, mas nem isso. pelo contrário, os pratos renderam um menu insosso, nem doce nem salgado, exagerado no silêncio e mingüado de ruídos. a receita desandou e o botão do fogão consertou. de como obstruções muito pensadas não rendem o caldo desejado. nos entantos, adormecemos sem motivo. de como o sono cansa. e envolvida neste bafuá desmedido, fiquei. desaprendi a tomar jeitos sem jeito, destemperei tudo aquilo que carmelo ensinou a salgar e a adoçar. e quando ele soube, não lamentou, voltou. desde dezembro de 2008: cafés curtos, lampejos estendidos, descomplicações à base de complicações. nós em tantos.
volto a exercer o sic de hilda: sinto-me livre para fracassar.
gracias, papá.