Não dá pra ficar imune
chovi cedo ontem. acordei nebulosa e mal-humorada. senti pressa e tive saída, a rua. vi uma ambulância perto do ponto de ônibus. lá não tomo, só pego rumo de sopetão. a sirene ao redor do umbigo, o enjôo, o arrepio, a dor voltaram. ambulâncias lembram-me de suas chagas. o dia ficou pingando dentro de mim. pontos isolados e isolantes. transbordei. árvores caíram. eletricidade acabou. fiquei na reserva de energias e o dia correu. cheirei palavras, tateei sílabas silenciosas, absorvi pensamentos perdidos. na faculdade, da manhã ao fim da tarde, não permaneci sozinha. gentes falando de outras gentes invadiram um mundo cheio de noves e tantos foras. zero? nenhum. é redondo demais e absoluto em si mesmo. metrô e rua. a insegurança pública permitiu a volta esfacelada de sentidos para casa. juntei os cacos físicos e os depositei ralo abaixo durante o banho. obviedades e variedades me abandonaram. durante o dia, bocados de ordinários momentos voaram sem serem libertos. joguei-me fora e deixei o bicho tomar conta do mundo até a manhã do dia seguinte. virge que deus maria por nós.